Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, com a alva, é certa;
e Ele nós virá como a chuva, como a chuva serôdia que rega a terra.
Oséias 6 : 3
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17 de outubro de 2014

DEUS É MÚSICA!

"...Tu és Santo, entronizado sobre os louvores de Israel."
                                                                                               Salmos 22:3


A música é, incontestavelmente, uma das linguagens universais; portanto, uma das incríveis manifestações de Deus. Sua existência se confunde com a deidade, que, de forma enigmática, eclodiu estrondosa e necessária em tempos mais do que pretéritos, como a origem de tudo que existe acima e abaixo das moradas celestiais. Daí, a noção basilar de que sem a música, a Criação, provavelmente, padeceria de uma melancolia eterna, o que não agradaria e nem tampouco estaria nos planos do Criador, ao executar a sua obra máxima, relatada no livro de Gênesis: a Terra e seu habitante ilustre, o Homem. 

Cantem ao Senhor um novo cântico,
seu louvor desde os confins da terra,
vocês, que navegam no mar, 
e tudo que nele existe, 
vocês, ilhas, e todo os seus habitantes. 
Isaías 42:10


É fascinante imaginar o cenário primevo, que instaurou todas as realidades, que se desdobraram a partir do evento inenarrável, que fora o ato divino da Criação, desde a suprema permanência de Deus, na linha da Eternidade; e, desse modo, representando o que sempre foi, o que é e o que sempre será, de forma inexorável. A visão do surgimento do universo, dos mundos, da terra; de toda a natureza, dos seres e do Homem, sob os acordes divinos, não deve ser compreendida como metáfora ou alucinação de quem investiga as Escrituras Sagradas em seus incontáveis enigmas; mas, antes, como um grande ensaio da Teopoética, que desvela, nos aparentes planos da mensagem teológica, os fatos e acontecimentos, que compuseram a história sobre Deus e de sua presença irrefutável na trajetória da Humanidade.

Aleluia! Louvai ao Senhor do alto dos céus, louvai-o nas alturas.
Louvai-o, todos os seus anjos: louvai-o, todas as legiões celestes.
Salmos 148:1-2


A música é inerente ao ser humano, e o mundo não existiria sem esta forma inexplicável e singular, que emergiu das densas cadeias da espiritualidade. Portanto, a conclusão é lógica: antes da existência de todas as coisas, a música, em sua cadência etérea, ressoava nas dimensões infinitas da suprema inteligência, que engendrou na Vida o movimento e o sentido de tudo que está nas escalas não - numeráveis dos multiversos. A despeito disso, indaga-se: qual teria sido o som da Criação? O silêncio que antecedeu os primórdios cedeu espaço para a grande pauta musical, onde Deus, arregimentando notas e acordes, e de uma forma harmônica e perfeita, orquestrou cada tom, cada semitom, nos diversos andamentos, allegro, adagio e andante, para além dos fôlegos cognoscíveis, para além dos mundos (im)pensáveis pela compreensão humana. O Altíssimo postulou pausas e prelúdios. Se a Humanidade herdou das altas e insondáveis vagas do Senhor dos Senhores uma das mais preciosas heranças, que é a música, é porque Deus, além dos anjos, incumbiu ao Homem para o verdadeiro exercício da Adoração e do Louvor. Os seres espirituais e o seres carnais, em planos distintos, formam o grande coro de reconhecimento e exaltação da magnificência, que é o poderoso Iavé - o Impronunciável - em sua musicalidade fausta e tremenda.
Pois o Senhor é grande
e muitíssimo digno de louvor,
ele deve ser mais temido
que todos os deuses.
1 Crônicas 16:25


A música está em todos os lugares. A música precede a existência de todos os seres viventes. Do pulsar de uma estrela à batida de um coração, os sons naturais rufam esplendorosamente em tambores perfeitos; das tempestades solares às chuvas que regam os campos na terra, melodias, singulares e plurais, são ouvidas, cada qual em seu ritmo, cadeia, escala e natureza! Os ventos assoviam nos pulmões invisíveis da Criação, e a canção do Espírito Santo, que é fogo invisível, ao crepitar suas labaredas poderosas e temíveis, ecoa, em modo terrífico, abrasando sons de destruição ou de purificação: é o rito permanente e imutável do Sagrado! Há música por todos os lados: presentes nos quatro elementos naturais, que sustentam a obra da Criação, onde a forma e a substância, harmônicas como a música, conferiram o sentido misterioso de tudo que existe no mundo natural e para além dele. O Fiat Lux, indubitavelmente, fora o primeiro verso de uma canção, que ainda não teve o seu final escrito e/ou executado, e a voz do Altíssimo, em tremores retumbantes, que varreram a Eternidade, fez sangrar o ventre do Universo para que os mundos, segundo sua excelsa vontade, fossem criados. Em sua hedionda presença, servindo-O, com glória e majestade, miríades e miríades de anjos, louvam, com brados refulgentes e gloriosos, anunciando, para todo o sempre, o primado da Luz e sua canção de amor e perfeição. Após a orquestra de luz introduzir o movimento inicial da melodia da Criação, o ser que nasceu do barro e que recebera nas narinas o fôlego da vida - RUACH* - tornou-se o Adorador primo nas esferas infinitas da espiritualidade. Seu cântico de agradecimento transformou a música imponderável do Senhor dos Exércitos em louvores (mais do que) altissonantes. 

Bendigam o nosso Deus, ó povos,
façam ressoar o som do seu louvor...
Salmos 66:8


A música que precedeu o Nada e o Tudo traz a assinatura do Eterno, que se confunde com os sons, e que, em tempos imemoriais, compuseram a essência dos primeiros seres a habitarem os céus: os Anjos. Em sua constituição ígnea, o fogo ardente do Espírito Santo aquecia, em vapores imensuráveis e incompreensíveis, para a inteligência humana, os sopros, que, em sua forma natural, foram as tempestades, as explosões, os terremotos, os maremotos; e toda a cadeia de fenômenos físicos e metafísicos, que deram a origem e o acabamento final da face bela, brilhante e incorruptível, no Caos, do planeta Terra: morada de todos os seres viventes; réplica celestial do paraíso, em patamares inferiores, até o advento do pecado. Arcanjos, serafins e querubins integravam o grande coro divino, que, eternamente, entoava cânticos de louvores ao Deus de toda Criação. Na terra, quando os filhos do Senhor aprenderam a arte de louvar, herdaram, também, dos anjos a Adoração, ato de fidelidade contínua, cujo som pode ser ouvido pelo Pai Maior, através dos hinos, dos clamores e, principalmente, das orações. Céus e terra proclamam a glória magnífica do Altíssimo, seja pelos sons da natureza - as brumas das águas oceânicas sendo arrebentadas nas rochas, na areia firme -, seja pelo canto infinito de milhares de pássaros, espalhados por todo mundo; seja pelo choro de um infante, ao nascer, mostrando que a vida apareceu em corpos sendo desvirginados pelo ar; seja pelo canto agudo da cigarra anunciando verões implacáveis! Os seres que Deus criou cantam das mais diversas maneiras. A vida não eclode em silêncio, mas em música; música que, sinestesicamente, pode ser perfume, aroma agradável, que sobe como oferta dadivosa para o Senhor dos Senhores. 

Seja Ele o motivo do seu louvor, pois Ele é o seu Deus, o que por vocês fez grandes e temíveis maravilhas que vocês viram com os seus próprios olhos.
Deuteronômio 10:21


Dos aplausos ao assovio do vento; das águas em queda livre das cachoeiras à complexa comunicação entre os cetáceos, que se dá, também, através de sons fantásticos, Deus está presente em uma de suas múltiplas formas, que é a música. Deus é música porque compreendê-Lo, em sua infinitude, reconhecê-Lo como único, acima e abaixo do firmamento - o Alfa e o Ômega -, e, principalmente, entronizá-Lo como centro emanador de todas as forças terrenas e cosmogônicas, é ter consciência de que sua canção, o hálito que dá sentido à vida de todos os seres, de todas as entidades e de todas as coisas, que existem, consciente e inconscientemente, em todos os planos da Criação, não terá fim, jamais. Sem canção, tudo caminha, inevitavelmente, à inércia; à morte, que consome todos, transformando filhos, filhas e criaturas em pó; na poeira estelar, que um dia, ontologicamente, foi, não é e não será nunca mais A canção do silêncio recolhe as notas musicais, desfaz as pautas e adormece os instrumentos. No entanto, a música continua em altiplanos não - visíveis por todos que são marcados pelo traço de finitude. A música que antecede a existência humana também continua a ressoar pelos espaços indecifráveis e inalcançáveis. Em ondas inaudíveis, é sombra do Espírito Santo que está em todos os lugares; onipresentemente musical. Deus legou à Humanidade, talvez, o mais belo dos segredos, pois a música, como parte integrante na história das gerações e gerações, que passaram pela terra, desde o conhecimento da Verdade, é filha do fogo purificador da deidade, que burilou a moldura que ornamenta a Criação. O louvor está em todos os lugares, pois a natureza, em sua sabedoria misteriosa, eleva seus cânticos belos, eternos e singulares aos ouvidos do todo poderoso Deus. Homens, mulheres, crianças e anciães entoam cânticos de louvor e adoração ao Altíssimo, pois todos são instrumentos vivos para que o Espírito Santo habite em milhares de templos de carne e osso e comungue, coletivamente, da melodia - mor, entre todas: a música do Amor.

"...falando entre vocês com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor..."
Efésisos 5:19


Elo perfeito entre as criaturas e o Criador, a música é a verdadeira aliança, que religa o visível ao invisível e o invisível ao visível; uma cadeia fantástica, virtuosa, alimentando e se retroalimentando, mutuamente. Em sons universais, o Pai Nosso, que está nos céus, através de suas misericórdias, acolhe todos que reconhecem sua grandeza em proteção e bênçãos. Ao inclinar seus ouvidos aos clamores e orações dos homens, Deus concede a dádiva de semear em cada coração, em cada existência, a semente promissora de dias cada vez melhores, e, também, longevos; e isto é canção! Entoada pelo Altíssimo, a melodia que não vemos, mas que atravessa nossos poros envasados, repercute e vibra nossa alma, que, em consonância com a espiritualidade, promove a verdadeira comunhão, que une céus e terra em espaços singulares. A música é a autora da adoração, que todos protagonizam (e que devem fazê-lo sempre!) quando se prostram diante da presença augusta de Deus. Sem adoração, música alguma teria sentido abaixo do firmamento, e a renovação diária, que o Espírito Santo realiza na vida daqueles que têm fé, desvaneceria. A música está na frequência modulada da fé; e a rádio FM da Fé tem um endereço inconfundível - o coração. Portanto, o verdadeiro louvor deve brotar do interior de cada um, pois adorar a Deus não se limita louvá-Lo apenas com os lábios, mas com o coração, que promove a harmonia, que deve existir entre os adoradores e o Adorado. Este coração não é apenas o órgão que está no mediastino; não é somente o músculo que bombeia o sangue para todo o corpo; mas, antes, é o que está cravado na alma de cada um, cujas batidas são mais do que a percussão dos tambores angelicais, são mais do que os címbalos vivos e dourados. Corpo, alma e coração formam o tripé da Adoração, que, modulada com a fé, eleva para os lugares mais cimeiros a melodia pura, a canção leve e a música santificada. Geminados e concebidos para contemplar a face do Pai, que recebe a oferta diária de seus filhos e filhas, a oração e o louvor se confundem; se fundem para se irmanarem na força que sustenta as cadeias espirituais, para além da compreensão de todos que foram marcados com o símbolo da morte até o advento da glória da segunda casa, quando outras canções serão entoadas e a música da Eternidade soará e ressoará para sempre, e toda a terra louvará, com lábios espirituais, o regozijante cântico da vitória. 

"Amém! Louvor e glória,
sabedoria, ação de graças,
honra, poder e força
sejam ao nosso Deus
para todo o sempre.
Amém!"
Apocalipse 7:12


Louvai ao Senhor. Louvai a Deus no seu santuário; louvai-O no firmamento do seu poder.
Louvai-O pelos seus atos poderosos; louvai-O conforme a excelência da sua grandeza.
Louvai-O com o som de trombeta; louvai-O com o saltério e a harpa.
louvai-O com o tamborim e a dança, louvai-O com instrumentos de cordas e órgãos.
Louvai-O com címbalos sonoros; louvai ao Senhor.
Tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor. Louvai ao Senhor.
Salmos 150:1-6




Nota:
*Ruach é a forma transliterada da palavra hebraica espírito.

24 de outubro de 2010

FÉ


         “Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá...” Certamente, muitos leitores sabem que este verso pertence a uma das mais belas canções da música popular brasileira – Andar com fé, do compositor e cantor Gilberto Gil. E o poeta, que a concebeu, literalmente não falhou, ao afirmar, de forma categórica, que andar e falhar caminham de mãos dadas com a fé. Não basta, portanto, ter somente fé. A posse da fé tem sentido se andarmos com ela; e, ao caminharmos com fé, descobrimos que ela é infalível! O poeta sintetizou a verdade, a experiência e a natureza da fé em um verso singular!
         Vãs seriam todas as tentativas se algum mortal se dispusesse a criar um conceito para fé; ou não haveria linhas suficientes para abarcar o universo que compreende tudo aquilo que é crível, e que, desse modo, existe por causa da fé. A fé, assim, é a força motriz para que a vida daqueles que acreditam em algo ou em alguém tenha sentido pleno, e que, como diz o verso da canção, não costuma falhar. Ratificando bem: não costuma falhar; e se falha, a culpa é exclusivamente nossa, é claro!
         Pense bem na palavra fé: um vocábulo monossílabo, oxítono, e que cabe no bolso de qualquer pessoa! Tão sintético, mas que concentra um vigor capaz de engolir universos inteiros! Aparentemente pequeno e imperceptível, mas imensurável em sua essência abstrata, e responsável por todas as conquistas na vida daqueles que aspiram à vitória como condição fundamental para serem pessoas que buscam incansavelmente a felicidade, que exercem a prática do amor ao próximo, e, sobretudo, carregam dentro dos corações o último dos grandes sentimentos: a esperança.
        Ora, se, por um lado, a fé surge como luminar minúsculo, mas que possui uma energia exuberante e inesgotável, por outro lado, a fé emerge diante de nossa visão, muitas vezes limitada, como se fosse uma verdadeira locomotiva, cujos vagões representam toda a cadeia de valores e princípios que dela emanam. Limitada, sim, porque nós a limitamos com a nossa incredulidade, que a torna menor do que um grão de mostarda. Logo, a fé é mais do que energia, dinâmica, força etc. Embora pareça estar no mundo das abstrações, a fé está, implacavelmente, no mundo das formas palpáveis e concretas; nas atitudes dos homens e nas mulheres de boa vontade; na transformação dos impossíveis em possíveis absolutos, que nos surpreendem ao longo de nossa trajetória como seres humanos.
         Se a fé não tem nada a ver com a visão ocular, mas, sim, com a percepção extra-sensorial, a sensibilidade dá o tom do fenômeno daquela em nossas vidas; e, no desaguar de nossos sentimentos mais nobres, a fé é esta matriz que promove, consolida e multiplica as ações, que humanizam o mundo e tornam os valores mais justos e igualitário entre aqueles que, desafortunadamente, são excluídos do bem - estar, em todos os níveis.
       A fé não deve remover montanhas! Não! A fé deve remover os corações dos homens para que o amor floresça e seja a chave de acesso para a transformação de vidas em mundo que almeja justiça. A fé não deve ser invisível! Não! A fé deve ser o elemento mais visível, mais cristalino, dentre todas as coisas que existem no mundo para que um ser humano, ao contemplá-la, possa descobrir, por esta via, o real valor da confiança – pilar de sustentação para todas as relações que se pautam no respeito mútuo, na amizade fraterna e na verdadeira comunhão, que, por sua vez, deve ser traduzida por atitudes que elevem o Homem no campo dos valores espirituais, de forma incondicional.
         A fé não vem do alto. Não! A fé, assim como a sabedoria, foi criada antes de o mundo ser formado pelo Criador. Logo, a sua existência precede a de todos os seres viventes, criaturas e filhos de Deus que habitam este planeta. Ela não está em lugar algum; cada ser humano nasce com ela! Sim! A fé é uma semente que já está cultivada em nossos corações. Devemos tão somente regá-las para que ela cresça, se desenvolva e se transforme em árvore frondosa. Essa é a obrigação de cada um de nós; esse é o dever de casa que todos devemos fazer, todos os dias, até o dia em que cessar a nossa caminhada por essa vereda sinuosa chamada Vida.
          A fé produz coragem, e a coragem destrói os medos que sempre nos rondam como fantasmas quase invencíveis. Armados para a batalha e fortalecidos pela fé, podemos, então, andar; andar de cabeça erguida, acreditando no amanhã cada vez mais promissor. Assim, a fé jamais falhará, pois somos nós as verdadeiras sentinelas dessa força que é capaz de mover céus e mares; de tocar o coração de Deus; e de operar milagres.
          Lancemos  o  nosso  olhar  sobre  as  escrituras  sagradas  e  reflitamos.  Eis  o que diz o apóstolo Paulo em uma de suas cartas: “Porque andamos por fé e não por vista” (2 Coríntios 5 : 7). Bom seria, então, se todos nós fôssemos cegos; mas, ainda assim, Deus, em sua misericórdia infinita, nos concedeu um par de olhos para que, em não buscando a fé, que está dentro de cada um de nós, pudéssemos ter a chance de aprender a se apossar de algo que é inerente aos filhos de Deus, e que de nós jamais será roubada ou aniquilada! Andemos com fé, prossigamos com fé, pois “ela” jamais falhará; quer dizer, o poeta brincou com as palavras e o sujeito da ação – na verdade, a fé não costuma falhar, mas somos nós quem falhamos! Andemos com fé para que não falhemos...
                                        
                                João Carlos de Souza Ribeiro
                                     Pós Doutor em Poética