Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, com a alva, é certa;
e Ele nós virá como a chuva, como a chuva serôdia que rega a terra.
Oséias 6 : 3
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17 de outubro de 2014

DEUS É MÚSICA!

"...Tu és Santo, entronizado sobre os louvores de Israel."
                                                                                               Salmos 22:3


A música é, incontestavelmente, uma das linguagens universais; portanto, uma das incríveis manifestações de Deus. Sua existência se confunde com a deidade, que, de forma enigmática, eclodiu estrondosa e necessária em tempos mais do que pretéritos, como a origem de tudo que existe acima e abaixo das moradas celestiais. Daí, a noção basilar de que sem a música, a Criação, provavelmente, padeceria de uma melancolia eterna, o que não agradaria e nem tampouco estaria nos planos do Criador, ao executar a sua obra máxima, relatada no livro de Gênesis: a Terra e seu habitante ilustre, o Homem. 

Cantem ao Senhor um novo cântico,
seu louvor desde os confins da terra,
vocês, que navegam no mar, 
e tudo que nele existe, 
vocês, ilhas, e todo os seus habitantes. 
Isaías 42:10


É fascinante imaginar o cenário primevo, que instaurou todas as realidades, que se desdobraram a partir do evento inenarrável, que fora o ato divino da Criação, desde a suprema permanência de Deus, na linha da Eternidade; e, desse modo, representando o que sempre foi, o que é e o que sempre será, de forma inexorável. A visão do surgimento do universo, dos mundos, da terra; de toda a natureza, dos seres e do Homem, sob os acordes divinos, não deve ser compreendida como metáfora ou alucinação de quem investiga as Escrituras Sagradas em seus incontáveis enigmas; mas, antes, como um grande ensaio da Teopoética, que desvela, nos aparentes planos da mensagem teológica, os fatos e acontecimentos, que compuseram a história sobre Deus e de sua presença irrefutável na trajetória da Humanidade.

Aleluia! Louvai ao Senhor do alto dos céus, louvai-o nas alturas.
Louvai-o, todos os seus anjos: louvai-o, todas as legiões celestes.
Salmos 148:1-2


A música é inerente ao ser humano, e o mundo não existiria sem esta forma inexplicável e singular, que emergiu das densas cadeias da espiritualidade. Portanto, a conclusão é lógica: antes da existência de todas as coisas, a música, em sua cadência etérea, ressoava nas dimensões infinitas da suprema inteligência, que engendrou na Vida o movimento e o sentido de tudo que está nas escalas não - numeráveis dos multiversos. A despeito disso, indaga-se: qual teria sido o som da Criação? O silêncio que antecedeu os primórdios cedeu espaço para a grande pauta musical, onde Deus, arregimentando notas e acordes, e de uma forma harmônica e perfeita, orquestrou cada tom, cada semitom, nos diversos andamentos, allegro, adagio e andante, para além dos fôlegos cognoscíveis, para além dos mundos (im)pensáveis pela compreensão humana. O Altíssimo postulou pausas e prelúdios. Se a Humanidade herdou das altas e insondáveis vagas do Senhor dos Senhores uma das mais preciosas heranças, que é a música, é porque Deus, além dos anjos, incumbiu ao Homem para o verdadeiro exercício da Adoração e do Louvor. Os seres espirituais e o seres carnais, em planos distintos, formam o grande coro de reconhecimento e exaltação da magnificência, que é o poderoso Iavé - o Impronunciável - em sua musicalidade fausta e tremenda.
Pois o Senhor é grande
e muitíssimo digno de louvor,
ele deve ser mais temido
que todos os deuses.
1 Crônicas 16:25


A música está em todos os lugares. A música precede a existência de todos os seres viventes. Do pulsar de uma estrela à batida de um coração, os sons naturais rufam esplendorosamente em tambores perfeitos; das tempestades solares às chuvas que regam os campos na terra, melodias, singulares e plurais, são ouvidas, cada qual em seu ritmo, cadeia, escala e natureza! Os ventos assoviam nos pulmões invisíveis da Criação, e a canção do Espírito Santo, que é fogo invisível, ao crepitar suas labaredas poderosas e temíveis, ecoa, em modo terrífico, abrasando sons de destruição ou de purificação: é o rito permanente e imutável do Sagrado! Há música por todos os lados: presentes nos quatro elementos naturais, que sustentam a obra da Criação, onde a forma e a substância, harmônicas como a música, conferiram o sentido misterioso de tudo que existe no mundo natural e para além dele. O Fiat Lux, indubitavelmente, fora o primeiro verso de uma canção, que ainda não teve o seu final escrito e/ou executado, e a voz do Altíssimo, em tremores retumbantes, que varreram a Eternidade, fez sangrar o ventre do Universo para que os mundos, segundo sua excelsa vontade, fossem criados. Em sua hedionda presença, servindo-O, com glória e majestade, miríades e miríades de anjos, louvam, com brados refulgentes e gloriosos, anunciando, para todo o sempre, o primado da Luz e sua canção de amor e perfeição. Após a orquestra de luz introduzir o movimento inicial da melodia da Criação, o ser que nasceu do barro e que recebera nas narinas o fôlego da vida - RUACH* - tornou-se o Adorador primo nas esferas infinitas da espiritualidade. Seu cântico de agradecimento transformou a música imponderável do Senhor dos Exércitos em louvores (mais do que) altissonantes. 

Bendigam o nosso Deus, ó povos,
façam ressoar o som do seu louvor...
Salmos 66:8


A música que precedeu o Nada e o Tudo traz a assinatura do Eterno, que se confunde com os sons, e que, em tempos imemoriais, compuseram a essência dos primeiros seres a habitarem os céus: os Anjos. Em sua constituição ígnea, o fogo ardente do Espírito Santo aquecia, em vapores imensuráveis e incompreensíveis, para a inteligência humana, os sopros, que, em sua forma natural, foram as tempestades, as explosões, os terremotos, os maremotos; e toda a cadeia de fenômenos físicos e metafísicos, que deram a origem e o acabamento final da face bela, brilhante e incorruptível, no Caos, do planeta Terra: morada de todos os seres viventes; réplica celestial do paraíso, em patamares inferiores, até o advento do pecado. Arcanjos, serafins e querubins integravam o grande coro divino, que, eternamente, entoava cânticos de louvores ao Deus de toda Criação. Na terra, quando os filhos do Senhor aprenderam a arte de louvar, herdaram, também, dos anjos a Adoração, ato de fidelidade contínua, cujo som pode ser ouvido pelo Pai Maior, através dos hinos, dos clamores e, principalmente, das orações. Céus e terra proclamam a glória magnífica do Altíssimo, seja pelos sons da natureza - as brumas das águas oceânicas sendo arrebentadas nas rochas, na areia firme -, seja pelo canto infinito de milhares de pássaros, espalhados por todo mundo; seja pelo choro de um infante, ao nascer, mostrando que a vida apareceu em corpos sendo desvirginados pelo ar; seja pelo canto agudo da cigarra anunciando verões implacáveis! Os seres que Deus criou cantam das mais diversas maneiras. A vida não eclode em silêncio, mas em música; música que, sinestesicamente, pode ser perfume, aroma agradável, que sobe como oferta dadivosa para o Senhor dos Senhores. 

Seja Ele o motivo do seu louvor, pois Ele é o seu Deus, o que por vocês fez grandes e temíveis maravilhas que vocês viram com os seus próprios olhos.
Deuteronômio 10:21


Dos aplausos ao assovio do vento; das águas em queda livre das cachoeiras à complexa comunicação entre os cetáceos, que se dá, também, através de sons fantásticos, Deus está presente em uma de suas múltiplas formas, que é a música. Deus é música porque compreendê-Lo, em sua infinitude, reconhecê-Lo como único, acima e abaixo do firmamento - o Alfa e o Ômega -, e, principalmente, entronizá-Lo como centro emanador de todas as forças terrenas e cosmogônicas, é ter consciência de que sua canção, o hálito que dá sentido à vida de todos os seres, de todas as entidades e de todas as coisas, que existem, consciente e inconscientemente, em todos os planos da Criação, não terá fim, jamais. Sem canção, tudo caminha, inevitavelmente, à inércia; à morte, que consome todos, transformando filhos, filhas e criaturas em pó; na poeira estelar, que um dia, ontologicamente, foi, não é e não será nunca mais A canção do silêncio recolhe as notas musicais, desfaz as pautas e adormece os instrumentos. No entanto, a música continua em altiplanos não - visíveis por todos que são marcados pelo traço de finitude. A música que antecede a existência humana também continua a ressoar pelos espaços indecifráveis e inalcançáveis. Em ondas inaudíveis, é sombra do Espírito Santo que está em todos os lugares; onipresentemente musical. Deus legou à Humanidade, talvez, o mais belo dos segredos, pois a música, como parte integrante na história das gerações e gerações, que passaram pela terra, desde o conhecimento da Verdade, é filha do fogo purificador da deidade, que burilou a moldura que ornamenta a Criação. O louvor está em todos os lugares, pois a natureza, em sua sabedoria misteriosa, eleva seus cânticos belos, eternos e singulares aos ouvidos do todo poderoso Deus. Homens, mulheres, crianças e anciães entoam cânticos de louvor e adoração ao Altíssimo, pois todos são instrumentos vivos para que o Espírito Santo habite em milhares de templos de carne e osso e comungue, coletivamente, da melodia - mor, entre todas: a música do Amor.

"...falando entre vocês com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor..."
Efésisos 5:19


Elo perfeito entre as criaturas e o Criador, a música é a verdadeira aliança, que religa o visível ao invisível e o invisível ao visível; uma cadeia fantástica, virtuosa, alimentando e se retroalimentando, mutuamente. Em sons universais, o Pai Nosso, que está nos céus, através de suas misericórdias, acolhe todos que reconhecem sua grandeza em proteção e bênçãos. Ao inclinar seus ouvidos aos clamores e orações dos homens, Deus concede a dádiva de semear em cada coração, em cada existência, a semente promissora de dias cada vez melhores, e, também, longevos; e isto é canção! Entoada pelo Altíssimo, a melodia que não vemos, mas que atravessa nossos poros envasados, repercute e vibra nossa alma, que, em consonância com a espiritualidade, promove a verdadeira comunhão, que une céus e terra em espaços singulares. A música é a autora da adoração, que todos protagonizam (e que devem fazê-lo sempre!) quando se prostram diante da presença augusta de Deus. Sem adoração, música alguma teria sentido abaixo do firmamento, e a renovação diária, que o Espírito Santo realiza na vida daqueles que têm fé, desvaneceria. A música está na frequência modulada da fé; e a rádio FM da Fé tem um endereço inconfundível - o coração. Portanto, o verdadeiro louvor deve brotar do interior de cada um, pois adorar a Deus não se limita louvá-Lo apenas com os lábios, mas com o coração, que promove a harmonia, que deve existir entre os adoradores e o Adorado. Este coração não é apenas o órgão que está no mediastino; não é somente o músculo que bombeia o sangue para todo o corpo; mas, antes, é o que está cravado na alma de cada um, cujas batidas são mais do que a percussão dos tambores angelicais, são mais do que os címbalos vivos e dourados. Corpo, alma e coração formam o tripé da Adoração, que, modulada com a fé, eleva para os lugares mais cimeiros a melodia pura, a canção leve e a música santificada. Geminados e concebidos para contemplar a face do Pai, que recebe a oferta diária de seus filhos e filhas, a oração e o louvor se confundem; se fundem para se irmanarem na força que sustenta as cadeias espirituais, para além da compreensão de todos que foram marcados com o símbolo da morte até o advento da glória da segunda casa, quando outras canções serão entoadas e a música da Eternidade soará e ressoará para sempre, e toda a terra louvará, com lábios espirituais, o regozijante cântico da vitória. 

"Amém! Louvor e glória,
sabedoria, ação de graças,
honra, poder e força
sejam ao nosso Deus
para todo o sempre.
Amém!"
Apocalipse 7:12


Louvai ao Senhor. Louvai a Deus no seu santuário; louvai-O no firmamento do seu poder.
Louvai-O pelos seus atos poderosos; louvai-O conforme a excelência da sua grandeza.
Louvai-O com o som de trombeta; louvai-O com o saltério e a harpa.
louvai-O com o tamborim e a dança, louvai-O com instrumentos de cordas e órgãos.
Louvai-O com címbalos sonoros; louvai ao Senhor.
Tudo quanto tem fôlego louve ao Senhor. Louvai ao Senhor.
Salmos 150:1-6




Nota:
*Ruach é a forma transliterada da palavra hebraica espírito.

24 de fevereiro de 2012

O TEMPO DE DEUS!


Kairós x Cronos.


PORQUE NÓS SOMOS DE ONTEM E NADA SABEMOS; PORQUANTO NOSSOS DIAS SOBRE A TERRA SÃO COMO A SOMBRA. JÓ 8 : 9.

Angústia.


A angústia é, ao lado do medo, um dos sentimentos mais violentos que acometem o Homem desde o tempo de seu (auto) descobrimento no mundo, na  primeva condição como criatura, e, também, na qualidade sublime como Filho de Deus, pois os crentes e salvos em Jesus Cristo, ambivalentemente, experienciam os tremores e temores que a vida impõe, de uma forma singular. Esta singularidade, a que me refiro, restringe-se à consciência aguda daqueles que portam as insígnias dos evangelhos, e aprendem, ao longo da jornada, como representantes do Reino, o real significado dos valores, dos princípios, dos ensinamentos e dos preceitos ditos cristãos em oposição àqueles que elegem o livre arbítrio como estrela - guia, distante da vontade de Deus e, por conseguinte, reféns de seu corações dados a enganos de toda sorte.


A inconsciência do ímpio.


Na inconsciência em relação à própria vida, o estado de angústia é titanicamente voraz, e, desse modo, entorpece a todos que desconhecem as Escrituras Sagradas, e que, de forma inevitável, sofrem sem saber. A angústia, ainda, promove os perigos da deriva como se as pessoas fossem naus desaguadas em seus próprios desatinos, sendo tragadas por mares bravios e potencialmente mortais; reservando finais não muito felizes para suas vidas. Retrato agudo de almas, que, vazias, tentam encontrar o caminho da felicidade, mas são surpreendidas com abismos vivos, que sobrevivem às custas das desgraças alheias. O tempo da angústia parece eterno e a dor é o inimigo invisível com o qual não se pode lutar, pois batalhar contra o abstrato é tentar, em vão, esvaziar um oceano inteiro com as próprias mãos. Insanidade ou pesadelo?


A consciência do cristão.


Na outra ponta do novelo, a consciência, que é a forte aliada daqueles que seguem os mandamentos de Deus e exercem, de forma livre e com o regozijo na alma as palavras crísticas, não são poupados de quaisquer sensações ou dos estados de tribulação, que são eminentemente humanos. Paradoxalmente, para aqueles que não têm familiaridade com a Palavra Deus, que pensam convictamente que os cristãos estão guardados e protegidos em uma bolha de vidro impenetrável, indestrutível, estando, portanto, livre das intempéries da vida; isto constitui-se em uma visão míope e desacertada da vida daquele e daquela que segue a Cristo. A consciência permite ao cristão, através de vários processos, sejam racionais, sejam espirituais, que aquele perceba que ela é real, e que, sob hipótese alguma, pode e deve ser menosprezada. Os cristãos, como todas as outras pessoas, são seres humanos que padecem das mesmas dúvidas, passam por problemas semelhantes aos de outrem e enfrentam declives e depressões, ao longo de suas vidas. No entanto, a diferença entre aqueles que são regulados pelos ensinamentos bíblicos e os que preferem viver movidos por suas vontades libertárias e princípios filosóficos próprios está no fato de que a grande problemática não está ancorada na angústia ou medo, na coragem ou na desesperança, na tribulação ou na insensatez como costuma fisgar a mente e os atos dos ímpios, mas, antes, na capacidade de ver além do véu; i.e., do discernimento de todas as emoções, através da visão espiritual, que o cristão exercita, e, lamentavelmente, pelo encobrimento cada vez maior daqueles que se distanciam da convivência de Deus. Duas faces  que se antagonizam devido aos valores que elegem para facear o mundo - o justo e o injusto.


Tempo para todas as coisas!


Debaixo dos céus, há tempo para todas as coisas. Tempo para começar; tempo para terminar, como está escrito em Eclesiastes. E a Palavra de Deus, ao transmitir tão sábio ensinamento sobre o tempo, no qual o Homem é o agente e o paciente de todas as ações concorrentes, inclusive passando por momentos de felicidade, e, também, de sofrimento, em todos os sentidos; fatos de natureza rara, que abrangem o ato de viver com todas as suas nuances, e narrados de forma cristalina na Bíblia, no livro citado acima, e que mostra todas as situações pelas quais todos vivenciam, quer sejam os salvos, quer sejam os ímpios. E, neste sentido, as Escrituras Sagradas são contundentes ao asseverar em outro livro, nos evangelhos novos:


PORQUE FAZ QUE O SEU SOL SE LEVANTE SOBRE MAUS E BONS, E A CHUVA DESÇA SOBRE JUSTOS E INJUSTOS. MATEUS 5 : 45.


Esperar no tempo de Deus.


A igualdade, que vem do Alto, como espada, pesa sobre os ombros de todos, e que é, antes de qualquer especulação, dádiva única de Deus, comprovando a grandeza, a infinitude de seu amor e a eternidade de suas misericórdias a nos alcançarem gratuitamente. Os Céus, com efeito, é para todos; o paraíso pertence a todas as pessoas que intentam buscar a face do Altíssimo para ter com Ele uma vida de intimidade, de entrega total, de corpo, alma e coração, e, sobretudo de obediência irrestrita aos seus mandamentos. Mas, o que o tempo tem a ver com tudo isto? Aliás, é mister que se pontue nestas linhas que o tempo, apropriando-me do dito popular para dialogar com as máximas bíblicas acerca do referido tema, é o Senhor de Tudo. E sendo o Senhor de Tudo, antes, não se confunde com o próprio Deus, mas é a transcendência do Altíssimo, que as nossas vagas e limitadas mentes jamais conseguirão vislumbrar quão grande é a sua natureza; a sua essência, que está acima daquele que nos torna finitos: o Tempo.


Deus, o Inefável.


O tempo de Deus não é o nosso tempo, daí porque sermos reféns de todos os sentimentos e sensações que devemos (ou deveríamos) dominar, ter autocontrole, e que fazem parte da nossa constituição na condição de humanos, que somos; criaturas, por fazermos parte da Criação, em todo seu esplendor, e filhos do Senhor, pelo reconhecimento inequívoco da vinda de Jesus e de seu maravilhoso plano de salvação para as nossas vidas. Em primeira instância, por sabermos que harmonicamente os estados da alma, a razão e a fé compõem o arquétipo do Homem, e em segunda instância porque a falta ou a perda do domínio se deveu, é claro, pelo fatídico ato de desobediência, nos primórdios, transformando a pérola da Criação em uma verdadeira locomotiva desgovernada, que ruma em direção ao precipício, quase sem chances de ser parada. É nesta supertensão, que parece uma corda a asfixiar pescoços em série, em inumeráveis forcas, que descobrimos, quando sabemos que o tempo não é nosso, e, sim, do Senhor; que o tempo, ainda que saibamos que não nos pertence, mas, antes, à esfera suprema e divinal do poderoso Deus, é, com efeito, somente Dele, é que devemos potencializar o nosso sentido de vigilância interior para que não sejamos, de forma torpe, enganados pelo próprio coração - morada dos nossos desejos mais infames, paraíso às avessas, que ultraja anjos ao doce sabor das vaidades humanas. Pecado?


O equilíbrio.


O móvel chamado Angústia, inflacionado pela ansiedade, que nos devora por dentro, é, desse modo, a turbulência que pode desestabilizar a balança, que está internalizada em nosso ser, cujo equilíbrio ideal advirá da serenidade e da observância do cristão, que, por sua vez, deverá buscar incessante e incansavelmente, em relação à realidade na qual está inserido, a presença constante do Espírito Santo, a coluna de fogo a nos guiar, pois, através do discernimento, apontará as instâncias alvas e diáfanas, que revelarão, na essência, a mensagem que vem do Alto, seja pelas respostas das orações, seja pelo exercício de escuta da voz de Deus, ou pelo derramamento das infinitas misericórdias de Deus em nossas vidas. É nesta busca necessária que o sentido das coisas do Alto fará com que a visão do cristão acerca do mundo celestial perceba e compreenda, sem desvios, no mundo espiritual, a vontade soberana e inquestionável de Deus. A insondável essência do Criador é, neste sentido, a manifestação inconfundível, para o verdadeiro filho de Deus, do Tempo que vem de cima; do Inefável, da presença do Altíssimo que se confunde com o Tempo, que pensamos ser o tempo, mas que, em verdade, não é; mas, antes, os mistérios da Eternidade, que eclode para todos os seres, através da palavra, seja o lógos imanente, seja o verbo transformado em carne.


Alfa - o princípio - Õmega, o fim.


Deus não tem tempo. Deus é atemporal. É o príncípio e o fim de todas as coisas, inclusive de Si mesmo. A Sua circularidade, encerrada no mistério, que jamais será desvelado, é a manifestação do evento, no qual a deidade se confunde com o próprio tempo. Tudo é a partir Dele e para Ele retorna, de forma implacável. Lei imutável, pétrea e eterna. Há tempo para todas as coisas debaixo do céu, imergindo na palavra de Eclesiastes, mas não há e não haverá, em tempo algum, tempo para o que existe acima do céu, porque lá existe somente uma entidade: a de Deus. E sendo Deus o Criador, Supremo e Único, o tempo de Deus não existe, o tempo de Deus é; este tempo, permanente, contínuo e inesgotável é o Kairós. E é na esfera do Kairós que devemos, todos, afinar nossas débeis compreensões para exercer a temência plena, a obediência inquestionável e a humildade humana - índices que aumentam a nossa sensibilidade para que no mundo espiritual alonguemos nossas visões, testemunhemos a plena vontade do Pai e ouçamos,  na intimidade com o Espírito Santo, a mensagem cristalina verbalizada voz de Deus.


Kairós, o Tempo de Deus.


O Kairós é o determinante e não o determinado; é o que funda e não é o fundado; é o que decide e não é o decidido; é o que transforma e não é o transformado. Acima do céu, o Kairós paira soberano, denso e eterno; abaixo do céu, o Cronos envolve toda a terra e a criação de Deus, que jaz sob a maldição do pecado e da morte, que veio para apartar, momentaneamente, a Criatura do Criador. Este é cenário mais contundente, que denuncia, para além do hiato, que nos separa de Deus, a nossa natureza exemplar: a finitude, que devolve à terra o barro de onde, um dia, saímos; e a existência, que, efêmera, volta para os braços do Pai, se aceitarmos o plano da Salvação em sua totalidade. Desse modo, ao sermos regidos pelo Cronos, somos devorados, pouco a pouco, desde o dia do nosso nascimento. A partir do nosso surgimento, a nossa existência desfia como fio que se perde e se desfaz na poeira das horas, dos minutos e dos segundos, como a areia que voa  e se dispersa ou como o vapor que se desfaz no ar; é o trajeto silencioso do nosso desaparecimento.


Cronos, o tempo do Homem.


O tempo de Deus não nos pertence. Somos dele pacientes e não agentes. O Cronos também não nos pertence, embora pensemos que o seguramos em nossas mãos como se fosse as rédeas de um corcel platinado, que segue seu rumo sem obedecer a comando algum ou ao desejo de qualquer mortal em searas terrenas. O tempo de Deus engole o tempo dos homens. Cronos é apenas uma  sombra da própria morte travestida, e que, um dia, também, como as criaturas, padecerá na consumação dos séculos; quando, então, restará somente o tempo da deidade, a presença excelsa e magnífica do Altíssimo no resplandecer da própria Eternidade. Eis, portanto, a chave do grande mistério: a esperança que devemos ter está na fé cultuada em um tempo que prepondera sobre nossas vidas, minúsculas e limitadas perante Deus. E ter esperança nada mais é do que esperar; esperar pacientemente; é ter a certeza de que as coisas se cumprem, segundo a vontade do Senhor, nos domínios imensuráveis do Seu tempo, pois, no silêncio eterno de Kairós, Deus se faz pronunciar em todo universo, no âmago da Criação e nos termos do Abismo. Diante de sua majestade e glória, as coisas, os seres e seus filhos se prostram para receber do Alto, através da misericórdia, a lei divina na qual sempre esteve predita que o Tempo, o verdadeiro Tempo não tem começo nem fim; não é marcado por ponteiros, não atrasa e nem tampouco adianta. O Tempo é; o Tempo acontece porque o Tempo é o legítimo Senhor de todas as coisas, pois nele Deus se faz presente, eternamente passado, eternamente futuro. Alfa e Õmega se conjugam na ventre da Eternidade.


A morte e a vida.


A nossa memória deve ser edificada em uma premissa angular. Qual seja: ainda que a Vida conheça o desenlace da Morte, a vontade augusta de Deus predomina sobre toda Criação, pois o tempo de Deus - Kairós - reina sobre o triunfo da vida e sobre o aguilhão da morte. O Cronos? Este jamais existiu e jamais existirá; é uma grande ilusão de ótica para que os homens e as mulheres na terra não caiam em desgraça e formem legiões infindas de desesperados a caminharem errantes sobre o fio da navalha, que é a Vida, imponderavelmente bela, mas paradoxalmente cruel.